Artigo: A desconstrução da maternidade perfeita


“Nas suas entranhas, a mulher sabe que

existe um toque de morte ao insistir em ser

aquela pessoa boa demais por muito tempo(...)

a pequena força instintiva que tanto é feroz quanto

resistente, não importa o problema que estejamos

enfrentando, ela leva uma vida oculta dentro de nós.”

- Clarissa Pinkola Estés

(Mulheres que Correm com os Lobos)


Por muito tempo a mulher tem sido reduzida a seu gênero e, como gerar e parir filhos é uma atribuição biológica feminina, não é difícil perceber que a visão romanceada da maternidade vem sendo transmitida repetidamente por gerações. Alie-se aí a idealização da maternidade na figura central das religiões cristãs – que por séculos foram dominantes – na figura de Maria, retrato fiel do amor incondicional, da abnegação pessoal e da submissão e está construído o mito da “mãe perfeita”, aquela que já nasce pronta para desempenhar esse papel.


Ocorre que ninguém nasce com manual; mas apenas com um sexo biológico (leia-se aqui “gametológico”, mesmo; porque até a identidade de gênero é uma opção!). Portanto, como tudo na vida, no momento que nos conscientizamos de nossa identidade de gênero, a maternidade também é opcional e precisa vai experienciada e aprendida.


O fluxo é mais ou menos o seguinte: nascemos com um gênero biológico, aprendemos a ser pessoas, depois a ser mulheres, profissionais, companheiras/esposas e, só então, mães (não necessariamente nessa ordem, claro). Tudo isso, com o enorme e complexo conjunto de “papéis”, expectativas e sentimentos que vem em cada “pacote”.


Imagine, agora, quando, pelo caminho, alguma coisa não sai bem como o esperado no “pacote” mãe: recebemos um filho com uma doença rara ou com uma deficiência. Pronto! Ganhamos mais uma etapa na escala de aprendizado!


Só que, além de ter que lidar com a enxurrada de emoções que essa criança nos impõe desde o início, teremos que exercer nosso aprendizado num ambiente – no mínimo – hostil, onde há muito medo e insegurança, pouca informação; mas muitas expectativas e cobranças pré-fabricadas por parte da sociedade.


O resultado disso, é facilmente observável nos discursos de parentes, amigos, líderes religiosos e até nas mídias sociais. De repente, nossa identidade é substituída pela de “guerreira”, “super-mulher”, “mulher-maravilha”, como se fosse um elogio. Não é; é uma despessoalização, um empurrão para nossa invisibilidade como pessoa integral, como cidadã de direitos e anseios individuais.


Para a maioria das mães, esses estigmas vão diminuindo e quase desaparecem conforme seus filhos vão se tornando adultos e senhores de suas próprias vidas. Há, para essas, uma perspectiva de retomada do “eu-mulher”. Já para nós – “mães especiais” – isso pode não acontecer com tanta naturalidade. A evolução e a severidade dos sintomas de nossos filhos e a necessidade cada vez maior de terceiros, em regime diuturno, impactará diretamente em nossa vida familiar, social e profissional, nos impondo escolhas difíceis, de toda ordem.


Assim, enquanto lutamos diariamente para adaptar planos, sonhos, desejos e felicidade para uma nova escala de valores e prioridades, para além de questões práticas do dia-a-dia – entre elas o alto custo de um membro da família com uma doença rara – e manter nossa própria saúde física e emocional, ainda temos que lidar com o cruel “senso-comum” de que a condição de nossos filhos nos coloca acima do ônus desses dilemas.


E agora? Quem poderá nos defender?...a resposta está no espelho! E esta é, talvez, a maior das escolhas que, quanto antes fizermos, melhor! Na verdade, as opções são apenas duas: OU aceitamos o rótulo e seguimos cobrindo os espelhos e repetindo padrões, numa posição platoniana de “mito das cavernas”; OU nos tornamos protagonistas de nossas experimentações e modelos de viver, ora acertando; ora errando, mas sempre aprendendo.


Diagnósticos não são determinantes de destinos; mas nossas escolhas, sim! Não tem fórmula mágica, nem padrão. Ser a melhor mãe que nossos filhos podem ter é simples, assim!


Rosana Puga de Moraes Martinez

Presidente da Associação de Doenças Neuromusculares de MS - ADONE




#PraTodoseTodasVerem


Início da Descrição: No card vemos a foto de uma mulher branca, morena, sorrindo, ao lado de um rapaz moreno, branco, com barba preta. Ao seu lado encontra-se outro rapaz branco, moreno, de óculos pretos. Abaixo da foto lemos a frase: "Diagnósticos não são determinantes de destinos; mas nossas escolhas, sim! Não tem fórmula mágica, nem padrão. Ser a melhor mãe que nossos filhos podem ter é simples, assim!". Abaixo da frase podemos ler: Rosana Puga de Moraes Martinez, membro da ADB, mãe do Lucas e do Pedro. Fim da descrição.


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